O doloroso processo de destruir certezas

Quem sou eu para escrever alguma coisa? Não. Eu não vou escrever, pois eu tenho medo de me expor. Tenho medo de descobrir que eu não sou assim como eu me imagino. De repente, eu acho que eu sou um bom escritor e, quando menos esperar, vou ser atingido por uma crítica fulminante, o que vai me forçar a perceber que na verdade ninguém gosta daquilo que eu escrevo. Então é melhor continuar nessa fantasia, onde eu me convenço de que eu sou fantástico escrevendo, mas que eu só não vou escrever pois não tenho tempo ou estou sem vontade. Pelo menos assim eu posso viver sendo o melhor escritor que já existiu, mesmo sem ter um leitor sequer.

Eu também poderia ser um grande empreendedor. Convenço a mim mesmo de que chegará o momento em que eu vou brilhar e abrir o meu negócio de sucesso. Eu vou fazer algo grande que vai mudar a minha realidade. Afinal, eu sou capaz e tenho inúmeras qualidades. Eu alimento o meu sonho e o meu sonho me alimenta, quanto eu vivo o mesmo cotidiano de sempre.  No fim eu não abro nenhum negócio, não tenho um cliente sequer e continuo feliz, com a “certeza” de que se eu abrisse um negócio, seria melhor que qualquer outro.  Com isso, eu não preciso correr o risco de falhar e de quebrar a cara.

Eu também sempre gostei de cantar. Quando adolescente, sempre cantava no chuveiro. Convenci a mim mesmo que sou um cantor de talento e que canto melhor que muitos vocalistas de bandas famosas. Meus vizinhos nunca concordaram, mas que se danem. Afinal, o que eles entendem de música? Sendo assim, hoje eu poderia dizer que estou aí nas paradas de sucesso. Mas eu não estou. Não sou cantor e nem canto mais no chuveiro. Demorou alguns anos para eu perceber que talvez eu não saiba cantar. Mesmo assim, algo em mim ainda tenta me convencer que ainda farei sucesso.

São muitas as certezas na vida que fazem com que a gente fique cego para a realidade. Estar tão certo sobre si mesmo cria uma fantasia que pode dominar sua autocrítica. Às vezes o “autoconhecimento” pode criar uma ilusão descompassada com a realidade, pois o que sabemos de nós mesmos pode não passar de uma doce fantasia. Assim como eu não sou um bom escritor, não sou empreendedor e nem mesmo consigo cantar. Muita coisa de mim mesmo é inventada. É quase como um mecanismo de defesa, um autoconceito que tenta me projetar como alguém de mais valor, defendendo-me contra críticas dolorosas e falhas miseráveis.  Afinal, falhar e descobrir que você não é quem você pensa ser é um processo muito doloroso.

No livro “The subtle art of not giving a fuck”, que em português seria algo como “A sutil arte de não dar a mínima”, Mark Manson diz que quase tudo o que conhecemos de nós mesmos é inventado e que fazemos isso para evitar entrar em contato com alguma verdade que coloque a nossa identidade em risco. A única forma de se livrar desse mal seria confiar na incerteza e nunca saber quem se é. Isso faz com que você continue seguindo em frente na descoberta de si mesmo, com humildade em seus julgamentos com relação aos outros.

Aceitar a incerteza permite que você esteja aberto à novas experiências. Essas experiências, embora ameaçadoras e destrutivas de autoconceitos, vão permitir um contato muito mais profundo com a realidade, eliminando falsas certezas e permitindo um conhecimento mais verdadeiro de si mesmo. É um processo interminável e doloroso de tentativa e erro, onde muito do que você achava que era vai ser perder, para dar lugar a novas possibilidades. Doloroso, mas é melhor do que você passar a vida acreditando que vai ser o próximo vocalista do Iron Maiden.


Willian Doi.

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