Criatividade X Mecanicidade

Vamos começar mais um dia. Enquanto eu tento dar o melhor de mim, há uma voz que me diz que devo me conter. Afinal, não devo me expor muito. Essa voz está sempre presente, tentando me puxar para baixo. Ela diz que o que eu faço não está bom o suficiente, que eu deveria parar de tentar e voltar àquilo que é normal e conhecido. E muitas vezes ela quase me convence. O pensamento vem em forma de bloqueio, pois o esforço é fazer com que tudo seja como foi aprendido um dia. Então eu tento forçar a barra um pouco para mudar as coisas e fazê-las de uma forma diferente. Minha mente entra em confusão, há tensão pelo corpo e inconscientemente sou puxado para outro assunto trivial, a fim de não sentir o conflito que existe dentro de mim.

Todos nós vivemos em conflito interno, numa luta eterna entre a mente criativa e a mecanicidade daquilo que foi ensinado pelos pais, pela escola e pela sociedade. Eu tenho medo de não ser coerente, de não lembrar os dados e de não saber repetir aquilo que eu aprendi. Para mim, lembrar das coisas exatamente como foram ensinadas é “conhecimento” (embora eu saiba lá no fundo que isso é mera repetição).

Eu paro um pouco e começo a pensar. Se julgo a mim mesmo enquanto faço as coisas, raramente algo criativo surgirá. Mas se não julgo aquilo que estou fazendo, pode ser que aquilo que surja seja desconexo e ridículo. É um risco a se correr.  E eu paro de novo e penso que já há muita coisa ordenada na vida e na sociedade. Existem coisas que você tem que ignorar a ordem e criar uma nova ordem.  Para isso, você deve deixar a mente fluir, mesmo que o resultado não tenha um resultado “lógico”. Dane-se a lógica. Ela nunca permitirá que você seja você mesmo. Ela te julgará quando você fizer algo pautado em suas reais intenções e te arrastará para o mesmo cotidiano que você engole todos os dias. Acabo de perder a linha do meu raciocínio e estou gostando disso. Afinal, quem disse que eu tenho que seguir uma linha qualquer?

Em um estado de “flow”, as coisas simplesmente nascem sem serem julgadas e vão ocupando cada uma o seu espaço. Não há ordem estabelecida e imposta de fora para que elas aconteçam. Simplesmente elas se encaixam (ou não se encaixam) e são o que são. Uma percepção profunda que não é alcançada pelas convenções mecânicas da vida, desde que abrace o seu direito de gritar para o mundo, tem uma chance de se tornar algo criativo. Para isso é preciso coragem para ignorar aquela voz que tenta te puxar de volta para o convencional, dizendo que você está errado, que não é assim que é feito. Se você fizer isso, você estará sozinho, fora do sistema, sem apoio ou segurança (embora esteja de olhos abertos). O medo é de que isso seja um caminho sem volta.

Por muitas vezes escolhemos o caminho que é mais seguro. É sempre mais fácil seguir o mesmo trajeto seguido por todos os outros. Cada um que o faz fica invisível e se torna parte de um organismo muito maior, dissolvendo nele as suas culpas e medos, atribuindo ao todo a responsabilidade por sua própria vida. No entanto, em todos nós, sempre haverá uma outra voz, um lampejo de criatividade que ousa questionar tudo isso. É difícil ouvi-la com clareza, pois ela se perde nas outras vozes do lugar comum. Mas cada dia que a ouvirmos, começaremos a seguir o rumo certo. E a cada pequeno passo, estaremos mais próximos de nós mesmos e de uma vida verdadeira.

Isso faz algum sentido? (pergunta a voz do lugar comum).

Willian Doi.



Comentários

Postagens mais visitadas