Tudo uma merda, mas tudo bem

No fim de tarde, quando menos se espera, após vários dias de intercorrências agradáveis, uma névoa escura se apodera da mente. Os pensamentos ficam sombreados e tristes. As cores desbotam, o brilho escurece; o sorriso esmorece. De todo o resto a gente esquece. Qual o motivo, você pode perguntar. Mas não há um porquê.

Você pode perguntar se isso é apenas mental, apenas algo que pode ser melhorado com o pensamento positivo. Eu digo que não. Quando isso acontece, você vê que não é uma questão de manter bons pensamentos, mas é quase como uma chave de liga e desliga, que abaixa a energia, interrompe a corrente e transforma sorriso em seriedade. Você sente na base da cabeça e em todo o corpo, que tem alguma coisa que se desligou. Afinal, o corpo e a mente são um só, uma máquina interligada que não pode funcionar bem quando alguma de suas partes está mal. “Você não pode controlar isso”, é o que o corpo faz com que você sinta. Tudo conspira para mostrar que você não pode fazer nada, que a sua energia baixou e você pode fazer o que for que não vai conseguir sair dessa. Esse é o panorama das coisas, a impossibilidade latente.

Mas eu, teimoso que sou, aprendi que sou responsável por tudo o que me acontece ao meu redor e qualquer evento é de minha responsabilidade. Então mesmo nesses casos, quando estou avoado e desconectado da realidade, eu aproveito para me afundar na névoa e me concentrar em conhecer um pouco dela. Afinal, sou eu quem faz a névoa. Sou eu quem está preso e sou eu aquele que prende, então não pode haver nada mais proveitoso do que ficar preso e prender a mim mesmo, porque assim eu conheço como as coisas funcionam.

Eu aprendi que não existem soluções rápidas e, geralmente, as soluções rápidas não são verdadeiras e deixam a desejar. Quando você está tão empenhado em atingir qualquer fim que seja, você se perde e passa a odiar o processo, pois você nunca vai alcançar fim algum. Você nunca estará satisfeito. Então talvez esse seja o segredo: Aprender a amar o processo, aprender a se desenvolver no aqui e agora, fazendo o melhor que puder ser feito, crescendo e aprendendo e nunca estabelecendo uma meta fixa. O que pode ser dito é que tudo começa aqui e agora e não tem hora e nem lugar para terminar. Destrua a finalidade. Aprenda a abrir mão de tudo aquilo que você quer. Aprenda a desfazer tudo e a refazer de novo. Cada objetivo alcançado deixa um vazio irremediável. Abrir mão de seus objetivos é fazer paz consigo mesmo. Isso soa um pouco niilista, mas eu não me importo. Talvez eu seja niilista, mas só por hoje.  Amanhã já serei outra coisa.


Já existem rótulos demais nessa sociedade. Quem disse que você precisa ser feliz a todo momento? Quem disse que você precisa estar bem a todo o momento? Pelo contrário. Eu acredito que você precisa de alguns momentos ruins, pra baixo mesmo. Isso é ser humano, imperfeito e verdadeiro. Não assuma nenhuma obrigação de ser feliz e de fazer os outros felizes, pois você nunca conseguirá cumpri-la. Aceite o fato de que há dias em que está tudo uma merda, mas que está tudo bem. 

Willian Doi

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