Dicotomia


Dicotomia.

A maioria das pessoas vive em uma constante contradição. Dentro delas, existem muitos elementos que entram em conflito. Desde criança, somos treinados para adquirir uma determinada personalidade, para agir de certa maneira e ser uma determinada pessoa. Mas existem certos tipos de obrigações que são tão contrárias com aquilo que somos que se torna impossível conciliá-las com aspectos inatos de nossa personalidade. Não se pode, por exemplo, ser sério e ao mesmo tempo brincalhão e divertido. São duas características totalmente contraditórias da personalidade. Claro, é possível uma pessoa manter essas duas características em esferas distintas de sua vida, trabalhando em um emprego sério por exemplo, onde o riso e a brincadeira não são vivenciados e mesmo assim manter um tipo de vida pessoal que é totalmente contrário a esse tipo de postura. Sim, é possível. Mas isso cria uma divisão tão severa na personalidade, que a pessoa acabará entrando em uma prisão da qual raramente conseguirá sair. Os divergentes aspectos da personalidade, embora se manifestem em situações e horários distintos, entrarão em um violento conflito, uma luta pelo controle total da personalidade do indivíduo. Cada vez mais será difícil que o indivíduo tome uma decisão inteira, baseada em sua vontade e certeza. Ao contrário, um mar de dúvidas invadirá a sua essência a cada vez que precisar manifestar-se como ser individual e único que é. Ele quer ser livre e agir de acordo com a sua vontade, mas tudo aquilo que lhe foi incutido e agregado em sua personalidade grita e puxa-lhe a atenção. No fim, ele nem mesmo sabe qual é a voz que vem de dentro si mesmo. A sua originalidade fica perdida, dividida entre dois seres simétricos, mas contrários e opostos entre si. No meio, o individuo acaba tendo sua alma esmorecida, pois já não tem leveza no corpo. O seu olhar não é firme e suas decisões sempre tem recaídas, pois, logo que escolhe um determinado caminho, uma outra voz com a mesma força o instiga a seguir o caminho oposto. 

Como eu sei de tudo isso? Ora, eu também sofro dessa divisão interna. Cada dia mais, essa dicotomia se torna mais aparente. O próprio conflito nos empurra para uma situação de conflito interno, buscando uma solução (ou destruição). Então, nunca poderei reputar esse conflito e a ansiedade como algo ruim. Pelo contrário, vejo isso como um estímulo para que da luta surja algo bom. Algo único. Infeliz é aquele que vive o tempo inteiro em um conflito morno e nunca percebe essa divisão dentro de si mesmo. Esse é capaz de passar a vida inteira sem nunca chegar a nenhum termo de si mesmo. Deus me livre, eu prefiro o conflito. Todos os dias, eu vivo uma batalha, um despertar diferente. O ser humano tem um processo interno de homeostase, que regula o seu contato com o mundo, buscando sempre o equilíbrio. Quando esse processo está em desequilíbrio, ele sofre. Esse sofrimento é acobertado inconscientemente, para que ele esqueça aquilo que não pode resolver. Mas um dia, se tiver sorte, ele será novamente chamado ao conflito e precisará dar um passo a frente. Cada passo nesse sentido o deixará mais forte, mais consciente e fará com que ele questione as decisões que tomou até hoje.

Esse processo é doloroso, pois questionar a situação em que você se encontra às vezes é questionar a si mesmo, os seus gostos, os seus valores e até mesmo a sua própria identidade. Pode ser necessário destruir algumas partes de sua “identidade”, o ao menos aquela identidade que você acabou adotando (ou sendo obrigado a adotar). Eu vivo uma fase em que cada pequeno lampejo de consciência me leva a questionar o momento que vivo e as coisas que faço. Isso me dá muito medo, pois perceber que algo está errado em nós, nos obriga a agir para modificar e certamente muito já foi construído em cima desse pilar que deve ser removido. O medo maior é que tudo venha a ruir, sem possibilidade de volta. Não. O medo maior ainda é ter de recomeçar do zero, tendo que retornar por todo o caminho percorrido até hoje. A sensação é de derrota e de fracasso.

Se você está aí, meu amigo, não se aflija. A vida continua, tudo recomeça. Não precisa voltar correndo como um louco por todo o caminho. Tome o seu tempo, tenha calma. Sente-se, reflita, planeje e faça pequenas jogadas. O fato de você ter se conscientizado daquilo que está errado já é um grande passo. Você está no meio do caminho errado e com certeza se sentirá sozinho. Respire e dê um passo de cada vez. Não há garantias de que tudo vá dar certo. Não há garantias para nada nessa vida. Estar nesse caminho é um mergulho no escuro, mas pelo menos você despertou e esse despertar é a única chance de se sentir vivo. Eu não posso garantir, mas eu mesmo gosto de acreditar: tudo vai dar certo!

Willian Doi

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