Lutar e deixar passar
Na vida, coisas ruins acontecem e às vezes não há nada que você
possa fazer para evita-las. Simplesmente, existem coisas sobre as quais nunca
teremos controle e o melhor que se se pode fazer é saber reagir a elas (ou não reagir). Nesses
momentos, é comum atribuir ao fato um motivo maior. Existe algum motivo para que infortúnios aconteçam?
A forma mais comum de se lidar com isso é atribuir uma razão para tudo o que
acontece. Eu gosto de pensar que nada nessa vida é por acaso e que há uma razão
para tudo. Quando se pensa dessa forma, é mais fácil aceitar o que não pode ser
mudado e reagir de uma maneira mais positiva. Não é que a razão que atribuímos
ao infortúnio seja verdadeira, pois é fácil atribuir o motivo depois que tudo
se foi, as coisas se acalmaram e tudo deu certo no final. Aí pensamos: “Ah,
isso aconteceu para que aquilo pudesse acontecer”. Agora, se isso é verdade, eu não
sei e nem posso saber.
Existe uma linha separando a fé da razão. Sob a ótica da fé,
tudo acontece de alguma forma porque Deus, o Universo ou a Força Superior quis que
assim acontecesse. A fé é certeza daquilo que não se pode ver. Se por outro
lado tentássemos invocar um pouquinho da razão para explicar como uma situação
melhor surgiu depois de um infortúnio, poderíamos dizer que a pessoa que adotou
a posição de não se abalar abriu a sua mente para novas oportunidades que surgiram
e, por isso pôde, seguir um novo caminho.
Seja lá como for, pela fé ou pela razão, infortúnios acontecem e às
vezes não se pode fazer nada. Então por
que não se pautar pelo lado positivo das coisas? Ninguém pode afirmar com
certeza que o infortúnio veio para uma razão que estava determinada em nossos
destinos. Pode ser que a justificativa tenha sido criada depois, quando a
realidade já foi alterada. Quando algo já aconteceu, é fácil criar justificativas e explicativas.
O fato é que ninguém sabe de nada e nunca pode saber.
Viver nesse não saber é que é o engraçado da coisa. Você
passa a vida inteira estudando, se aperfeiçoando e trabalhando, achando que
está desenvolvido o suficiente para entender a vida e tudo ao seu redor. Tudo é
fácil de se entender quando as coisas estão acontecendo à contento. Basta uma
engrenagem fora do lugar num dia qualquer para que se questione todo o
conhecimento adquirido em uma vida. Basta algo um pouco pior, para que se
questione a razão, a fé e a Deus. Às vezes é muito mais fácil admitir para si
mesmo que você não sabe o porque de as coisas acontecerem como acontecem e
seguir em frente. Há situações em que essa é a sua única opção, pois pensar
demais sobre o porque das coisas pode te deixar louco e o melhor é seguir em
frente sem saber. Eu acredito que é nesse sentido que dizem que a ignorância é
uma benção. Não saber e ser surpreendido todos os dias pela vida cria uma
insegurança material tão violenta, mas ao mesmo tempo cria uma segurança
espiritual de que as coisas são do jeito que deveriam ser.
Quando eu era criança, eu vivia feliz e despreocupado, pois
eu tinha a certeza de que quando eu me tornasse um adulto, eu seria forte,
decidido e sempre saberia o que fazer. Eu teria todas as respostas e nunca mais
faria nenhuma estupidez. Finalmente o momento chegou e me provou com todas as
evidências que eu estava redondamente errado, pois até hoje faço coisas completamente
estúpidas das quais eu me arrependo amargamente. Hoje eu percebo que nunca chegará um
momento em que eu estarei isento de erros. Eu posso agir da melhor maneira
possível, de acordo com as minhas crenças, os ensinamentos que me foram passados e tudo o
mais, mas ainda assim nada vai me garantir que eu estou certo. Ainda assim, eu
posso fracassar de maneira inacreditável e só nesses momentos é que eu posso dizer
com a boca cheia e toda a certeza do mundo: “Que bosta, eu estava errado!” Esse
é um dos maiores medos da minha vida, pois aprendi desde cedo que não se deve
errar nessa vida. Mas quem não conhece a
queda, não conhece a ascensão. Viver com medo de cair é andar eternamente na
corda bamba, o que é muito pior que cair. Sinto que preciso cair, para poder
aprender mais sobre minhas limitações, sobre a minha vulnerabilidade. Eu
preciso aceitar que eu erro, faço merdas e sempre farei, independentemente da
minha idade. Eu sou humano.
Não ter controle sobre o que se passa ao redor gera uma
ansiedade terrível, mas é preciso aceitar esse fato. Enquanto escrevo este texto,
uma voz sussurra na minha cabeça: “Você não tem o controle... você não tem o
controle... você não tem o controle. O tempo é maior que tudo e vai desgastar
todas as coisas até chegar ao final. A sua vida é um pequeno sopro de tempo,
que vai se apagar e da qual ninguém vai se lembrar. Um dia quando você se for e
se houver um além, você vai acordar e perceber como a sua vida foi um pequeno
sonho, com ternuras e torturas”. O meu papel é fazer com que esse sonho seja o
melhor possível, com uma mistura de esforço e de complacência. Fazer e não
fazer. Lutar e deixar passar. Deixar passar, até que tudo passe.
Willian Doi.
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